O PROFETA DA LAMA QUE CUSPIU NA ORDEM
Morou no lixo de Ipanema, xingou o mundo e gravou o som do fim.
Ele não pediu licença, não pediu esmola moral e não pediu aplauso. Damião Experiença surgiu do porão do Brasil para cuspir verdades em forma de barulho. Do sertão à Zona Sul, da Marinha ao lixo sagrado do apartamento 1308, sua obra fede a lama — e é exatamente por isso que funciona.
Chamavam de mendigo. Chamavam de louco. Chamavam de tudo, menos do que era: um sujeito que transformou trauma em método e miséria em cosmologia. O tal Planeta Lamma não é metáfora bonitinha de faculdade: é sentença. A lama engole todo mundo. Rico, pobre, artista, crítico. No fim, todo mundo vira o mesmo caldo.
A infância foi paulada, cipó e sabotagem. O pai derrubou a casa que o menino levantou. O menino derrubou o mundo depois. Fugiu cedo, foi caçado em feira, entrou num navio escondido e comeu cacau furado no escuro. Sobreviveu cinco dias no porão. Ali nasceu o som abafado que depois viraria disco: claustrofobia rítmica, fome como harmonia.
No Rio, vestiu farda. Achou pai e mãe na Marinha. Achou cadeia também. Por amor, desertou. Por castigo, apodreceu na solitária. E foi ali — no cubículo — que aprendeu a organizar o caos. Pintou, escreveu, afinou o desespero. O presídio virou conservatório. A disciplina virou faca.
Aposentado por invalidez depois de cair de mastro, Damião se aposentou da sociedade inteira. Gravou como quem vomita: violão mutilado, dialeto próprio, vozes empilhadas até virar massa. Chamaram de “Frank Zappa brasileiro”. Ele chamou de verdade. Quanto menos entendiam, mais certo estava.
Sobre sexo, dinheiro e poder, não romantizou nada. Amor é troca. Casamento é posse. Política é arma. Religião virou comércio. Raça sem indústria é conversa fiada. Não pediu perdão nem legenda. Preferiu o ataque frontal: quem chora demais esquece de construir.
O fim foi coerente. Viveu cercado de objetos resgatados do lixo, um ecossistema de sobrevivência dentro de Ipanema. Para entrar, tinha que rastejar. Para entender, tinha que engolir o nojo. Morreu como viveu: sem pedir silêncio. Deixou barulho suficiente para décadas.
QUEM GANHA
- Quem entende que arte não é produto, é cicatriz
- A música brasileira fora da prateleira
- Todo excluído que prefere criar a pedir desculpa
QUEM PERDE
- A indústria que só aceita o “vendável”
- O ouvido educado demais pra lama
- A crítica que confunde conforto com qualidade
Damião provou que o mundo até pode ser perfeito — mas é feito pra moer gente. Quem não vira lama, vira mentira.