BANCO CENTRAL QUER QUE VOCÊ COMA O DINHEIRO
Quando o dinheiro vira comida, o sistema para de fingir: sempre foi sobre quem engole, quem digere e quem passa fome olhando a vitrine.
Fim do prato feito: proposta prevê notas nutritivas mastigáveis e bancos no lugar de restaurantes.
Uma ideia indigesta começa a circular nos bastidores do pensamento econômico nacional: transformar dinheiro em comida. Literalmente. A proposta promete girar a economia, reduzir filas, matar a fome — e causar ânsia moral em quem ainda acredita que dinheiro não é só um pedaço de carne processada.
Tudo começou num self-service comum. Um prato pesado, um refrigerante gelado e um pensamento obsceno demais para ser ignorado: aquele almoço custava uma nota de dez reais. O líquido, uma moeda. Dinheiro virando energia. Energia virando dinheiro. O ciclo fechado como intestino preso.
A partir daí, a ideia fermentou: e se o dinheiro já nascesse comida? Não pagar para comer. Comer para pagar. Bancos substituiriam restaurantes. Nada de cardápio, fila ou espera. O cidadão sacaria uma nota, mastigaria e seguiria o dia alimentado e solvente.
Não seriam notas comuns. Seriam notas nutritivas, projetadas para sustentar o corpo por dias. No lugar de animais simbólicos, estampas de bifes, bolinhos, massas e legumes. Um real que realmente valesse algo no estômago.
Economistas chamariam de inovação monetária. Místicos chamariam de transmutação. Na prática, seria o capitalismo assumindo sua forma final: o dinheiro deixando de fingir que não é carne.
Haveria variações. Notas diet. Notas gordurosas. Notas vitamínicas. Cada cidadão escolheria o tipo de REAL conforme sua biologia, não sua renda. Comer seria um ato bancário. O banco, um órgão digestivo do Estado.
O impacto social seria imediato. Crianças que pedem dinheiro para comer não comprariam mais porcaria e continuariam com fome. Comeriam a própria nota. Pessoas no semáforo mastigariam o auxílio. O fluxo monetário entraria direto na corrente sanguínea. Menos discurso, mais caloria.
Claro, surgiram objeções. Notas passam de mão em mão. Bolsos suados. Bactérias. Nojo. Mas o sistema prevê saquinhos plásticos esterilizados. Afinal, ninguém gosta de dinheiro molhado — nem por fora, nem por dentro.
QUEM GANHA
- O Estado, que finalmente entra no metabolismo do cidadão
- A economia, agora digerida em tempo real
- Quem está cansado de pagar pra comer e comer pra pagar
QUEM PERDE
- Restaurantes lentos e filas desnecessárias
- A ilusão de que dinheiro é algo limpo
- Quem ainda acredita que economia não passa pelo intestino
Quando o dinheiro vira comida, o sistema para de fingir: sempre foi sobre quem engole, quem digere e quem passa fome olhando a vitrine.