AGORA CPF CANCELADO PEDE IFOOD NA CADEIA

Quem babava por pena máxima agora escolhe marmita, silêncio e tratamento especial.

Quem babava por pena máxima agora escolhe marmita, silêncio e tratamento especial.

Quando o castigo era abstração, era entretenimento. Quando ganhou CPF, idade e estômago sensível, virou petição. O Brasil assiste, mais uma vez, à conversão instantânea do ódio em frescura — com direito a entrega monitorada.

Fica fácil aplaudir castigo quando o castigado é um conceito distante, um apelido, um “elemento”.
Fica fácil babar como bovino raivoso, mugindo “bandido bom é bandido morto”, quando o sofrimento é do outro, longe, anônimo, empilhado.
Até que o conceito ganha CPF.

Aí vira gente.
Aí tem estômago frágil.
Tem idade avançada.
Tem soluço.
Tem histórico médico.
Tem advogado em plantão.

E tem exigência.

O mesmo sujeito que chamava presídio de hotel agora torce o nariz para a bandeja. Não confia no feijão. Questiona o arroz. Insinua risco. Quer comida “segura”, “controlada”, “trazida de fora”. Se der, cadastrada. Se possível, fiscalizada. Se existir, entregue. É o Estado Penal versão iFood: pena máxima no discurso, delivery no cumprimento.

“Tem que sofrer mesmo!”, berra o bovino raivoso, com a boca espumando de slogan.
“Direitos humanos é coisa de vagabundo!”, ele completa, limpando a baba no braço da camisa da seleção.
Do outro lado do balcão ideológico, surge o comunista maluco, com o dedo em riste e a teoria atravessada:
“Isso prova que o sistema é opressor e burguês!”, grita ele, enquanto ignora solenemente que o mesmo sistema nunca ofereceu marmita especial para o preso sem sobrenome, sem holofote e sem Twitter.

Os dois berram.
Os dois estão errados.
E o esgoto corre no meio.

Porque ninguém está pedindo para melhorar a cadeia para todos.
O pedido é outro, mais rasteiro, mais escorregadio:
— “Por que o outro pode ficar em casa e eu não?”
— “Por que o outro recebeu benefício e eu não?”

Não é justiça. É ciúme penal.
Não é princípio. É comparação conveniente.

A estratégia é velha e fede: pegar um exemplo ruim, uma decisão torta, uma exceção mal explicada, e usar isso como escada para escapar do próprio castigo. Não se corrige o erro. Capitaliza-se o erro. A injustiça vira argumento. A exceção vira regra. A lama vira jurisprudência.

Enquanto isso, o preso comum — aquele que nunca virou conceito, nunca virou meme — segue no modo padrão do inferno brasileiro: comida ruim, banheiro imundo, banho frio, silêncio forçado, nenhuma confiança, nenhum cadastro, nenhuma escolha. Para ele, não tem aplicativo. Tem fila. Para ele, não tem debate. Tem rotina.

A diferença é obscena.
Para uns, a cadeia vira discussão de cardápio.
Para outros, é sobrevivência.

E o mais escatológico não é o pedido por dignidade.
É ter passado anos defecando sobre a ideia de dignidade — e só descobrir seu valor quando a própria bunda encosta no banco duro.

QUEM GANHA

  • Ganha a hipocrisia institucional, que sempre encontra um precedente podre para justificar um privilégio novo.
  • Ganha o discurso cínico, que troca princípio por conforto na primeira dor de barriga.

QUEM PERDE

  • Perde o preso comum, que continua comendo lixo enquanto CPF famoso discute tempero.
  • Perde a ideia de justiça, transformada em barganha comparativa.
  • Perde qualquer noção de coerência moral, já dissolvida no esgoto.
No fim, sobra a verdade que ninguém quer engolir:
“CPF cancelado” só é engraçado quando não é o seu.
Quando o conceito ganha corpo, idade e medo, o discurso vira pedido.
E quem passou a vida inteira pedindo cadeia dura descobre, tarde demais, que o problema nunca foi a lei — foi achar que ela só morde os outros.

Reportagem de Migueh