A NECESSIDADE É UM CIGARRO ACESO
A vida não faz sentido — faz barulho. Quem aprende a ouvir, escreve; quem escreve, respira; quem respira, aguenta mais um dia.
Entre café frio, gatos gritando e gravatas assassinas, a filosofia pede fogo e cinza.
O homem moderno acorda precisando de tudo e entendendo nada. Precisa de dinheiro, de sono, de nicotina, de sentido — e recebe um rádio chiando, um quintal em polvorosa e a certeza de que o corpo mente até a hora em que cobra. Esta é a crônica suja da necessidade travestida de escolha.
Primeiro, o inventário do desespero: cerveja, cigarro, sono, dinheiro, comida. Depois, a higiene como ritual mágico — banho, barba, dentes — para fingir que o caos foi domado. Não foi. O corpo assina o recibo e manda a cobrança por dor de cabeça. Tudo psicológico, repetimos, até virar fisiologia com juros.
A filosofia começa quando a mente tenta escrever e tropeça no próprio estômago vazio. “Infantilidades democratizadas pela sociedade”, diz o sujeito, como quem acusa a prateleira do mercado por vender fome em doze vezes. A lucidez é um luxo que se paga em cafeína trazida pela mãe — a única profecia que funciona.
No quintal, gatos fazem sexo e gritam como se o mundo estivesse acabando. Não está. Só está acontecendo. A natureza não pede desculpa, não finge orgasmo e não escreve tese. Faz. Enquanto isso, a moral urbana observa, julga, e volta para dentro para reclamar do barulho. O escândalo não é o acasalamento felino; é o espelho.
A vizinhança ensina sociologia aplicada: cães que amam cães, cães que amam cães que amam cães. A vida segue sem pedir autorização ao manual de bons costumes. O ditado popular entra como decreto constitucional: grosso, impreciso e verdadeiro o suficiente para sobreviver à vergonha.
No rádio, a música feita sob medida para agradar todo mundo consegue o milagre inverso: não agrada ninguém. A tecnologia envelhece mais rápido que a paciência. O discman vira resistência política. O chiado vira mantra. A dor de cabeça vira edital: pare de escrever. Não pare.
O cigarro acende. O pulmão reclama. O raciocínio se justifica: imposto pago, rua asfaltada, moral comprada a granel. Um milímetro da cidade é meu, diz o fumante — e talvez seja mesmo. A cidade é feita de vícios compartilhados e recibos rasgados.
Bob Marley entra, sai. IRA entra, fica. O nacional resolve o que o internacional promete. O slogan do maço manda morrer cedo e devagar, com poesia industrial e ratos imaginários. A propaganda é honesta: mata, mas avisa.
E então vem a metafísica do tênis. ADIDAS vira sigla libidinosa, o pé entra, sua, cansa, sai. Consumimos conforto como quem consome relações: trocamos quando aperta, reclamamos quando folga, juramos amor ao próximo par. As mulheres colecionam sapatos; os homens acumulam desculpas. Generalizações são atalhos sujos — mas funcionam como mapa de bar.
A gravata, esse instrumento de tortura civilizada, fecha o argumento. Começa solta, vira promessa, termina laço. Amizade, namoro, casamento: cada nó um aperto. Quanto mais se sobe, mais falta ar. O sucesso tem cheiro de tecido sintético e gosto de segunda-feira. Alguns se divorciam da gravata e pagam pensão à própria liberdade. Outros seguem enforcados, mas alinhados para a foto.
No muro da Zona Leste, a epifania: “O escudo é o estudo.” Não salva do impacto, mas reduz o sangramento. Aprender não resolve tudo, mas atrasa o fim. E às vezes isso basta.
A vida não faz sentido — faz barulho. Quem aprende a ouvir, escreve; quem escreve, respira; quem respira, aguenta mais um dia.
QUEM GANHA
- O corpo, quando finalmente é ouvido antes de gritar.
- A ironia, única ética que não pede licença.
- O estudo, escudo furado, porém útil.
QUEM PERDE
- A gravata, que aperta até a consciência desmaiar.
- A propaganda, quando alguém lê o aviso.
- O silêncio, atropelado por gatos, rádios e verdades incômodas.