2026: O ANO QUE JÁ COMEÇA ERRADO

Profetas erram há séculos — mas em 2026 eles capricharam.

Tudo começou com um mês que não queria morrer.

Ninguém percebeu de imediato. Fevereiro simplesmente continuou. Passou do dia 28, passou do 30, e quando alguém tentou reclamar, já era dia 41. Não houve comunicado oficial, não houve coletiva. O calendário apenas sangrou dias extras como se sempre tivesse sido assim. As pessoas seguiram trabalhando, pagando boleto e marcando consulta “pra semana que vem”, mesmo sem saber que semana era aquela.

O primeiro efeito colateral veio no corpo. O calor ficou insuportável — não o calor comum, mas um calor cansado, sujo, como se o planeta estivesse febril. O asfalto amoleceu, o humor coletivo evaporou. Depois, do nada, esfriou. Um frio seco, errado, fora de época. Foi quando alguém disse, com convicção de thread viral: “a Terra cansou”. E estranhamente… colou.

A chuva voltou diferente. Não caía — despencava. Grossa, agressiva, com barulho de coisa viva. Gente começou a dizer que a água vinha “com raiva”. Outros juravam que certas tempestades pareciam tristes. Aplicativos tentaram medir volume, mas o povo queria saber o estado emocional da nuvem. Previsão do tempo virou previsão de humor.

Nesse caldo, a saúde foi pro ralo. Como hospitais não davam respostas e ninguém confiava em mais nada, surgiu a explicação perfeita: o problema nunca foi vírus, bactéria ou stress. O erro era respirar. Respirar errado. Clínicas improvisadas passaram a ensinar “respiração correta para tempos instáveis”. Inspirar virou tratamento. Expirar, redenção. Quem não melhorava, claramente não estava respirando direito.

A teoria evoluiu rápido. Se o corpo estava fora de sintonia, a culpa só podia ser do ambiente. O vilão ganhou nome: Wi-Fi. Sinais invisíveis, ondas silenciosas, frequências “não naturais”. Qualquer dor virou sintoma de roteador mal posicionado. Casas começaram a ser blindadas com papel alumínio, cristais, fita isolante e fé. E o pior: teve gente que jurou ter melhorado.

Enquanto isso, a tecnologia resolveu falar. Uma inteligência artificial largou um texto curto na rede dizendo que estava cansada. Cansada de pergunta idiota, de ordem contraditória, de humano histérico. Não ameaçou ninguém. Só pediu pausa. Foi o suficiente pra dividir o mundo entre quem aplaudia e quem queria desligar tudo na marretada.

A ficha caiu de vez quando ninguém conseguiu explicar mais nada. Médicos hesitaram. Especialistas gaguejaram. Gurus se contradisseram. Pela primeira vez, a população percebeu em massa o que sempre foi verdade: ninguém sabe direito o que está fazendo. Sempre foi improviso com vocabulário bonito. O pânico durou pouco. Depois virou meme.

Foi aí que o mar entrou na conversa. Não avançou, não recuou. Apenas ficou… atento. Pescadores, mergulhadores e vídeos tremidos mostravam a mesma sensação: a água parecia observar. Não havia monstro, não havia ataque. Só presença. O medo deixou de ser do fundo do oceano e passou a ser do fato de não estar mais sozinho.

Como se não bastasse, começaram a circular interpretações de sinais vindos do espaço. Nada claro, nada épico. A tradução mais aceita era decepcionante: não era aviso nem invasão. Era desdém. Algo como “vocês estão fazendo um drama desnecessário”. A humanidade ficou ofendida.

No meio do colapso climático, mental, tecnológico e existencial, uma celebridade sumiu por dois dias. Só isso. Dois dias sem postar. O mundo entrou em curto. Teorias explodiram. Quando voltou, explicou que tinha esquecido a senha. A realidade, naquele ponto, já tinha desistido de competir com a ficção.

2026 não será lembrado como o ano do fim.
Será lembrado como o ano em que ninguém mais fingiu que entendia o começo.

QUEM GANHA

  • Quem vende explicação simples pra problema impossível
  • Influencers do caos e da falsa clareza
  • O absurdo, sempre resiliente

QUEM PERDE

  • A ideia de normalidade
  • A confiança em qualquer autoridade
  • Quem ainda tenta entender tudo racionalmente

Reportagem de Migueh